domingo

Era um domingo de manhã, claro e caloroso. O telefone tocou e, por uma fração de segundos, senti que sabia o que seria dito – e soube. Perdi o foco, o rumo, o fôlego. As lágrimas, ainda que eu não saiba o motivo, recusaram-se a cair e eu, que sempre falo tanto, me vi sem palavras. Corri e me perdi, dentro da minha própria casa. Liguei para uma ou duas ou três pessoas – e que me desculpem os vizinhos, mas não ponderei meu tom de voz. Sai, mas antes de sair, orei. Olhos estatelados, cabelo bagunçado e desespero… Tanto desespero que não sei como quantificar em palavras. Era para ser mais um dia comum, calmo e tedioso – mas não foi. Assinei alguns papeis, escolhi um caixão e tentei não repetir mil vezes que eu pensei que aquilo não aconteceria, não naquele dia.

GA – 6.01

“De acordo com Elisabeth Kubler-Ross, quando estamos morrendo, ou sofremos uma perda catastrófica, passamos por 5 estágios de luto. Passamos pela negação. A perda é tão inconcebível que não acreditamos nela. Ficamos bravos com todo mundo. Bravos com os sobreviventes, bravos conosco, e então, barganhamos. Nós suplicamos, imploramos, oferecemos tudo o que temos em troca de apenas mais um dia. Quando a barganha falha, e a raiva é demais para persistir, ficamos deprimidos, desesperados, até que finalmente aceitamos que todo o possível foi feito, e desistimos. Desistimos e tentamos aceitar.”

[…]

 

Eu nunca pensei que aconteceria

O suicídio é uma ruptura – de uma matéria, de um ciclo, de uma vida. Eu já escrevi cem vezes (talvez mais) sobre a morte, mas nunca havia precisado lidar, cara a cara, com ela – até o domingo de manhã chegar. Dito isso, vi e comprovei que o ser humano, em sua essência original, não está nem estará preparado para enfrentar o fim – seja hoje, amanhã ou em vinte e cinco anos. Contudo, precisamos aceitar que, um dia, o relógio para. Os minutos não mais serão contados. Os segundos sequer fazem diferença. A morte vem, mas muitos ficam. E, aos que, como eu, ficaram e ainda ficarão, digo que a dor é indescritível – e destrutível. Surgem perguntas que jamais serão respondidas. Aparecem dúvidas sobre o motivo, sobre a razão. É um tsunami que nos arrasta. É um terremoto que nos derruba. É a consequência de uma morte repentina, caótica e dolorosa.

 

Tabus e Debates: psiquiatras, psicólogos e todos os “loucos” do mundo

Eu posso falar sobre dor? Porque, para muitos indivíduos, o “falar sobre dor” é pura dramaticidade. De fato, como seres humanos, somos, em diversas situações, indiscutivelmente melancólicos. Contudo, o caos e as paranoias, às vezes, extrapolam. E dói. E machuca. E nos faz questionar o real motivo de estarmos aqui. Atualmente, em um contexto social menos “quadrado” e menos cheio de censura, temas como depressão, suicídio, ansiedade e vários outros distúrbios da mente, antes considerados assuntos tabus, tornaram-se tópicos de discussão. Então, é importante falarmos sobre dor. Milhões e milhares de crianças, adolescentes, adultos e idosos encontram-se em sofrimento emocional, o que acarreta, a esses indivíduos, também sintomas físicos – como insônia, fadiga e irritabilidade. De início, achamos que é apenas frescura, pois nos foi incutido, culturalmente, que psiquiatras e psicólogos servem para atender e cuidar de pessoas chamadas de malucas – e nós não somos malucos, ora! Nós apenas pensamos demais. O tempo passa e os sintomas se intensificam. As horas de sono diminuem. O choro torna-se ainda mais frequente. A vontade de permanecer vivendo, em contato com outras pessoas, vai embora. Por isso, meus caros, precisamos falar sobre dor. Se doer, busque ajuda. Desconstrua esse pensamento ultrapassado de que somos seres fortes e autossuficientes, cheios de orgulho, e que não precisamos de outro alguém para conseguir entender uma parcela de nós mesmos. Vá à terapia. Marque horário com um psiquiatra. E não deixe a dor vencer – nunca!  

Tabus e debates: abuso

GATILHO: o texto FICTÍCIO abaixo faz um debate sobre ABUSO SEXUAL, MORAL E PSICOLÓGICO – não leia se possuir uma experiência negativa e não superada sobre o assunto.


Eu não sei direito o que ou como escrever sobre o assunto, mas sei que preciso falar. Há alguns dias, entre um perfil e outro, encontrei uma série de meninas relatando que sofreram abuso sexual, moral e psicológico. Não tive coragem de prosseguir para os comentários, mas, por ser uma página de teor feminista, acredito que muitas mulheres exerceram empatia, conforto e sororidade. Na minha época, isso não existia – isso de falar e receber apoio. Debater o assunto “abuso”, há dez anos, era considerado um tabu, e pode ser que, para algumas pessoas, até hoje seja. Em primeiro lugar, a culpa é da mulher – ela provocou, ela não impediu, ela até gostou. Em segundo lugar, não havia coragem ou abertura para conversarmos com nossos pais. Em terceiro lugar, éramos desinformados – e ainda somos! Milhares de crianças e adolescentes são abusados psicologicamente, moralmente e sexualmente todos os dias, mas não conseguem entender a gravidade e a magnitude do que acontece com eles. Dito isso, falo que eu, como mulher, já estive na mesma posição que os exemplos anteriores. Tio, primo, irmão da melhor amiga – não nesta sequência. E, até agora, eu nunca havia falado (de forma aberta) sobre o assunto, mesmo quando sinto que há algo quebrado dentro de mim e que eles arrancaram grande parte da minha inocência. Sempre haverá insegurança, receio e até raiva – porque abuso marca, na pele e na alma.